Uma Viagem de Maria

Maria resolveu ficar em casa para descansar o corpo, a mente e a imagem já tão gasta na noite da pequena Zona Sul carioca. O Rio é uma ervilha que não permite repetições.

Tentou deitar e ler. Não conseguiu. A pulsão... Seu corpo possuído... Se escondeu debaixo da cama. Desligou o celular. Mas era uma loba que se contorcia. Sabia que não deveria sair da caverna naquela noite de lua cheia.

Facebook, brinquedinho do momento. Sexta a noite, ninguém em casa. Toc. Toc. Toc. Posts e posts não comentados. A solidão invadia a sala vazia de Maria e a tela sem graça de seu computador. Até que uma nova solicitação de amizade surgiu a sua frente. Maria aceitou prontamente, mas percebeu que não conhecia o novo amigo e que sua foto era de um macaco! O Macaco pulou no Chat e disse “oi!”.

Ela não perguntou seu nome, onde morava, nem o que fazia. Apenas sugeriu que viajassem juntos para a África de balão. Ela tinha um! O Macaco disse que não gostava de altura e sugeriu que fossem de barco.

Fizeram planos para a incrível viagem e combinaram a saída do Brasil assim que terminasse o inverno.

Na noite seguinte, se encontraram virtualmente novamente, mas não havia mais o Macaco sim o Barquinho de Papel. Ela perguntou o que tinha acontecido ao Macaco e o Barquinho disse que o Macaco já estava dentro do barco esperando pela viagem.

Maria seguiu conversando com o Barquinho, agora num papo mais profundo. Explicou ao Barquinho o significado dos sonhos, dos pesadelos e ilusões. Contou que quando a gente nasce o Sonhador coloca sementes de sonhos na nossa mente. Toda vez que dormimos, um sonho explode, como uma pipoca. Quando a mente esquenta demais, a semente queima, e temos pesadelo. Explicou que quando se sonha acordado não é sonho, é ilusão. O Barquinho disse que entendeu, mas hoje, analisando bem, Maria tem certeza de que ele não entendeu nada do que ela falou.

Ele pediu seu telefone. Maria deu. Ele ligou. Marcaram um café para o fim da tarde do dia seguinte. Mas, ela entendeu que combinaram no fim do dia. Ligou onze da noite. Ele já ia dormir.

Diante do primeiro mal entendido, Maria disse ao Barquinho: “Somos loucos, não? Eu sou louca. Você é louco...” Mas, esta parte, parece que o Barquinho também não registrou.

O resto da história é o que acontecesse com todo mundo, a toda hora: o Barquinho virou um homem de carne e osso que encontrou a menina maluquinha para um café que virou chope, que virou casa do Homem, que virou mais drinks, que virou massagem, cama, sexo. A lua ainda estava cheia.

No dia seguinte o Homem perguntou se Maria queria se casar com ele, mas ela sugeriu que fizessem terapia de casal, visto que o convite se deu as sete da manhã e ela detesta acordar cedo.

Maria levantou da cama e se vestiu. Saiu do castelo sabendo que seu sonho já tinha virado ilusão.

A lua diminuía sua força rumo ao movimento minguante. Maria começou a ler seu livro.

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